quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Lugares-espelho


É preciso viajar para entender que existem lugares pelos quais se sente não somente admiração, mas ainda também uma estranha sensação de pertença: o Alentejo, pela brandura das suas planícies e da sua gente. A Galiza, pelas suas encostas cheias de mar e melancolia. É um aperto no coração, como se uma das das nossas raízes tivesse crescido muito debaixo da terra para vir a brotar novamente longe da árvore.

Chamo a estes lugares paisagens-irmãs, ou lugares-espelho. São aqueles onde venho buscar sempre um pouco de mim.


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Bagan


Que lugar é este que é tão exótico, tão distante, e que no entanto se torna tão meu? Este calor seco que conheço tão bem não é tropical, é o nosso, o das tardes quentes no Alentejo, das nossas estradas poeirentas. Então é este chão, também sei qual é, de areia e barro, então vou transitando pelo sul de Portugal, ora aqui é a serra algarvia, ora ali a planície alentejana, e o rio que corre sem ondas nos grandes espaços abertos e areais, é um espelho do estuário e das praias desertas de casa. De entre os pagodes, feitos em tijolo, quase vislumbro os castelo de Silves. Mas não é só a Portugal que este lugar me leva, o que já é muito porque o torna meu, mas é também a África, a lugares onde nunca estive mas onde o sol se deve deitar da mesma forma, entre a neblina dourada e as copas das árvores. É também à Europa, pois estes pagodes são como catedrais, e ainda, mais que tudo, e acima de tudo, é o fascínio deste lugar impossível, desta humanidade imensa que é capaz de sonhar tão alto e depois construir, e são paredes cheias de desenhos fantásticos, leões, dragões, budas, olhos rasgados, as bocas sorridentes, coisas com mil anos, andávamos nós na idade média, andavam eles aqui a desenhar nuvens nas abóbadas, a construir estátuas debaixo de campândulas. É a magia de um lugar que se descobre pelas rodas das bicicletas e das lambretas, na estrada onde turistas e locais estão em pé de igualdade,  onde terra se percorre com toda a liberdade, viajando por caminhos vazios, por searas, por aldeias com casas como enormes caixas de vime, e as pessoas dormem em espreguiçadeiras ou dizem adeus. É um sem fim de visões-postal de uma Ásia que muito sofreu, mas que nunca o deixa transparecer, a julgar pela quantidade infinita de bocas e olhares sorridentes.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Latvija

Agora que o tempo vai apagando o supérfluo, e se me perguntassem como foi aquele lugar, eu enumeraria cinco memórias:



#1 vista da janela: o rio está congelado e abre-se branco defronte da janela da escola. Tudo é alvo, excepto os pequenos círculos negros que o ponteiam. Junto a cada círculo está um homem acocorado. São os pescadores, que pescam a linha por furos na fronteira gelada.

#2 A língua que se ouve parece um feitiço, uma coisa mística, uma ave que voou pela floresta e nos ensinou a língua a dançar: paldias, liepaja, jurmala, kuldiga.

#3 Outra janela, desta vez que se move. Lá fora tudo é branco, tudo adormece, ninguém nem nada se vê, nada se cheira. Tudo se suspende, até o tempo. Tudo é horizontal.

#4 Na rua, junto à estrada: uma rapariga. Pára e, fechando os olhos, vira a cara para o sol. Os raios tímidos iluminam-lhe o rosto. Sorri. Estamos em Maio e chegou a primavera. Provavelmente há mais de seis meses que o sol não lhe sorria de volta.

# 5 A praia fica sempre depois da estrada, depois do pinhal. Por vezes caminhamos muito, mas nunca nos cansamos. Por vezes, dentro do pinhal, ainda há o pântano, ainda há o lago. Chego a esquecer-me de onde estou, e faço muitas pontes com a minha península, no meu país. Quando se chega à praia a areia está rija como betão, por causa do gelo. O mar empurra e cristaliza o gelo nas suas orlas. E tudo é de novo horizontal: o branco da neve: o negro dos limos: o vermelho do mar.


domingo, 2 de abril de 2017

Declaração de amor aos lugares do Norte


Para se entender os Bálticos, tal como para se entender a Escandinávia, é preciso viver cá. É preciso viver todas estas incongruências, o longo inverno, a ausência e a noite, para entender porque nos apaixonamos. Na verdade, nunca se chega a entender. Porque talvez a lógica não exista. Eu acho que é sempre preciso ver a moeda com os seus dois lados: um lado que se sacrifica e outro que se ganha, um não vive sem o outro. Aqui, é o frio que dá.  É preciso o frio para ter o conforto da casa, o tempo para nós, a serenidade e as artes. Não viesse o frio e não tínhamos isso. É preciso o frio para a alegria infinita dos primeiros raios de sol. Hoje fazem 15 graus e vamos pela primeira vez à esplanada. É Abril. Lembro-me de, pelos meus anos, em Abril, já se poder ir a banhos. Aqui é somente tempo de plantar flores no jardim e de ver os rebentos tímidos tentar a sua sorte nas árvores ainda nuas. Aqui agradece-se todos os dias, e todos os dias são bons, e eu pergunto-me porque me sinto tão feliz, se nada realmente aconteceu. 

É esse o mistério dos países do norte, é esta a sua magia, as paisagens impossíveis, suspensas no tempo em que são permitidas ser, um lugar inóspito que amansa, e uma bondade que se estende sem pressas, sem percalços, sem fachadas, apenas uma felicidade imensa e a brandura.

terça-feira, 14 de março de 2017

Pensamentos soltos


Hoje faz sol em Rīga. Na verdade, desde que cheguei, é o primeiro dia em que faz sol assim : o dia inteiro. Caminho pela rua de cabeça erguida, e não com a pressa habitual a fugir ao vento. É a primeira vez que o sol me bate assim na cara, e que vejo a cor aos edifícios. É uma Rīga diferente, desperta, como se houvesse hibernado ou, ainda, como se eu tivesse, até agora, andado sem óculos, e de repente os pusesse e descobrisse o mundo com nitidez. Talvez hoje tenha chegado a primavera, embora o gelo insista em não derreter nos passeios. As pessoas saem à rua, passeiam os cães, namoram. Vejo os rebentos tímidos a brotar nas árvores, as senhoras velhas de casaco de peles, uma mulher magra com um ramo de rosas brancas na mão e penso que sim, hoje é um bom dia para comprar flores, uma rapariga de sobrancelhas finas, e um casal a beijar-se nos jardins. É como se Rīga, de repente, passasse a ser habitada. Compro um café na rua e é-me desejado um bom dia "have a nice day, enjoy your coffe". Sabe-me bem ouvir isso, isso basta-me para hoje. Apercebo-me como viver fora nos torna tão humildes, enquanto nos enche de sonhos. Como nos faz sorrir com tão pouco. Aflora-me à memória Lisboa, como um sonho, talvez uma mensagem trazida pelo sol. Quando se vive longe tantas vezes, já nem se sabe onde é dentro, onde é fora. Muitas vezes penso em casa e quero sempre voltar. Mas hoje estou aqui, a testemunhar este lugar, é primavera, e Rīga é a cidade mais bonita do Mundo.



Ao som de: Ludovico Einaudi And Ballake Sissoko - Ma Mere



sexta-feira, 10 de março de 2017

Paixão branca



Não sei se é o horizonte. Não sei se são os areais infinitos ou as ondas. Caminhar pela margem interrupta até decidir quando voltar para trás. Não sei se é esse olhar em frente por linhas: azul do céu, escuro o mar, a areia, depois as algas, depois de novo a areia, ou aqui, a neve, e por fim, os pinheiros. Também não sei se são, talvez, esses pinheiros, ou as gaivotas. Mas há algo aqui que me apazigua, e que me faz entender-vos. Talvez sejamos somente seres crescidos junto ao mar, e partilhemos essas infâncias na areia. Aqui, tão longe, olho a planície cheia de neve e parece a lua. Por vezes tudo parece um lugar irreal, enquanto outras parece casa. Ou ainda, talvez, seja apenas a brandura, que aqui nasce todos os dias e em Portugal adormece junto ao mar.
Pouco falei da vida aqui. Tiro poucas fotos porque as mãos não aguentam o frio de segurar na câmara. Neva há 5 meses agora. Os rios estão congelados. Por vezes partem-se, e amontoam-se triângulos de gelo nas margens do Daugava. Eu percebo porque alguém se pode apaixonar aqui, entre tanta adversidade, é que o frio traz a paz e o silêncio. Pequenas bolsas de calor irrompem na cidade, nos cafés, nas casas de madeira. Em alguns lugares acendem-se salamandras, noutros os aquecedores nunca se desligam. E por enquanto, até a neve derreter, lá para Maio, vai-se vivendo assim, para dentro, por quem cresceu a viver para fora. E essa paixão que se descobre por cá, venha ela das linhas horizontais ou do sossego, é uma paixão branca, serena. 
E fica assim tão fácil gostar da Letónia.

Ao som de: Ryuichi Sakamoto & Morelenbaum - Estrada Branca

quinta-feira, 2 de março de 2017

Pastel de Nata

E chega aquele momento em que vejo o meu país reduzido a um pastel de nata. Umas palavras em sotaque brasileiro e um pastel de nata. É isto que recebo de volta quando digo que sou daí "como vai você", "phashtel dê natha". E não sei se devo ficar satisfeita ou frustrada. Porque se reconhece o país, porque ouviram falar, e quando falo de dança perguntam-me se se dança o fado e eu dentro de mim sem ter quem entenda que Portugal é muito mais, Portugal é um mosaico de história, é ponto de encontro, é África, é Ásia, é o mundo inteiro, que Lisboa é tropical, cheia de jacarandás e tâmaras, e que são tantos os doces conventuais como as espécies de pássaros, que as coisas variam conforme a região, que o fado só é fado há pouco tempo, mas temos as gaitas de foles, as gaitas de beiços e as violas. Mas ninguém sabe, e Portugal encapsula-se num pastel de nata, e eu irrito-me contra o simples doce que vezes sem conta me é questionado, "you have that cake, how do you call it?". 

Eu irrito-me mas é preciso aceitar que esta é a nossa caravela, um grande pastel de nata que vai daqui até à China.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Dois Montenegros


Arrependo-me de tudo o que escrevo sobre o Montenegro, é um país confuso depois deste tempo. Vi-lhe o Verão, o Outono e agora o Inverno. As montanhas a mudar de cor. Fascinei-me ao virar de cada  estrada, a seguir a cada passo. Mas arrependo-me sempre do que quero dizer. Talvez existam dois Montenegros. Aquele que fica à superfície, esplendoroso, e aquele que fica debaixo, confuso e entrópico, e que só se revela a quem insiste em acordar sistematicamente sob o mesmo tecto. Todos os dias são um duelo entre os dois Montenegros, entre o branco incorrompível da neve e o negro da imprevisibilidade nas pessoas e nos lugares. Às vezes referem-se a outros países como "a Europa" como se aqui não o fosse, e não o é. Embora tão perto, embora o pareça para quem olha as ruas, as lojas, as casas, deixa de o ser nas mentes e nos ritmos. Então é preciso entender que dimensão é esta, e é preciso aceitar e perder um pouco de nós, ou então aprender a ir embora.

Trabalhar no Montenegro


Por vezes penso que a coisa mais difícil de fazer no Montenegro (ou pelo menos aqui, em Cetinje) é mesmo trabalhar. E não penso em trabalhar por falta de oportunidades, penso em trabalhar porque sim, porque precisamos. Trabalhar pela criação, pelo que se transforma, em nós e nos outros. Mas aqui há uma inércia, as salas estão vazias e todas as esplanadas estão cheias, todas as cadeiras ocupadas. Os copos cheios de rakja, café e cerveja. As mãos cheias de papelinhos com números de apostas. E o tempo corre devagar como uma tarde de verão, apesar dos cinco graus de Dezembro.  Apesar de ser de manhã, ou de tarde, ou meio-dia. As salas estão vazias. As pessoas falam, dão abraços e fumam cigarros cá fora. É uma maré que arrasta para a inércia. Todas as noites antes de dormir faço planos e encho papelinhos de gatafunhos. Deito-me tarde a desenhar, trabalho às escondidas para que ninguém veja. Trabalho-alternativo, trabalho-revolucionário, trabalho pedindo licença. Mas de dia fico calada, engulo as ideias e afogo-me em chá de menta. 


Viver fora é isto, não é? Pôr tudo em causa, o que é certo ou errado, o que é apropriado ou normal, quem detém a razão? Eu? Ou a gente que flutua em cadeiras ao sol, que convive e abraça os amigos e a família? Sinto-me um ponto minúsculo e indecifrável. E é preciso ceder, e ser como a gente, entender como se faz, aqui.


Mas enquando ninguém vê, trabalho. Secretamente.  

(Não digam a ninguém)


domingo, 16 de outubro de 2016

Montenegro


Lago Skadar



Existem países diferentes, com as suas cores e os seus ritmos mais ou menos movidos. Existem países que escondem, que se agasalham, países que guardam, países vestidos ao contrário, para dentro dos pátios, outros para dentro das casas e outros para dentro dos quartos. Se há países tão diferentes, há países que dão com uma mão e tiram com a outra, há países que nada dão e a terra é seca, há países de luz e países de sombras, há países que exigem, outros que escondem e depois há aqueles países que dão, simplesmente dão.


Quando escrevi esta frase tinha acabado de chegar ao Montenegro, eu sabia que desde o início este é um país que dá. Agora passou um mês e continuo a acreditar, e não foi preciso muito para entender que a única coisa que Montenegro me pede é que exista, que acorde pela manhã e observe. Aqui a visão deve ser o sentido que devemos ter mais apurado, não existe um único pedaço de terra que não seja magnífico, não existe outra actividade que nos seja pedida senão a da contemplação. E contemplamos. Começamos com uma lista, um trabalho-de-casa de lugares, que agora são só promessas místicas: Perast, Durmitor, Biogradsko jezero, Ostrog, Kotor, Lovcén, Stoliv, Rijeka Crnojevica, Ada Bojana, Ulcinj, Piva, Žabljak, Rijeka Tara. A cada estrada percorrida Montenegro abre-se, vira-se para fora, dá tudo como mais não pode, não é possível caber mais beleza num pedaço tão pequeno de terra. Na minha cama na cidade real de Cetinje, onde regresso todas as noites, acordo rodeada de montanhas. Nas ruas cada vez mais frias empilham-se troncos à porta de cada casa para um inverno que sempre chega aqui primeiro e com mais intensidade. Dentro das casas coloridas moram pessoas simpáticas que não me entendem. Mas, tal como as paisagens, não tarda em que mesmo estas dêem tudo o que têm, todo o seu tempo, o seu interesse, a sua casa. E é assim que passa o primeiro mês, um mês onde somente recebo e eu, que tenho para dar?

sexta-feira, 10 de junho de 2016

O lugar que eu sou

Os dias passam depressa e em breve a hora
De voltar a dizer adeus às paredes brancas
E ao mar azul e agora
Eu não quero
Eu não quero dizer adeus eu não preciso mais
Que estas paredes alvas e que as ondas
Nada mais é preciso
Que acordar debaixo do sol
E atear lume na calçada
Há marés, meu amor, é como a gente
Que anda pelos montes como a corrente e eu
Arrastada mais longe
Arranco páginas ao calendário até chegar à última
E o relógio e as malas me esperarem na porta
E eu digo adeus sem estar preparada
Mas já aprendi a dizer adeus sem estar preparada
Então direi adeus de novo mas hoje
Antes dos dias vindos e ao passar o Rossio
Olho-o com amor e apaixono-me
Todos os dias como se fosse o primeiro
Todos os dias me apaixono
E quero chorar debaixo das arcadas
Quero correr à beira- rio à sua fronteira
Eu o amo tanto que não cabe cá dentro
E se vou embora procurando resposta
É antes de partir que esta me é dada
Aquela que procurava o lugar
Que eu sou.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Cheia



Porque só eu sou cheia no desequilíbrio
Só cheia sou eu quando com fome
Vontade de cair se em terra firme
E coração vazio quando não sofre
Chamam-lhe paixão eu nem sei que chamo 
Mas chamo! Pela noite fora
Se só estou cheia quando com fome
Venha a neve e leve aqueles que dormem
E eu fique nua, pela tempestade;
Aquela que quer o calor do fogo
Mas que não vive sem o frio no rosto.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Namorados


Vivemos com a ânsia da morte. Todos os dias.
Ancorados na noite escura, ancorados debaixo das mantas, temos as pernas entrelaçadas, nós nos dedos indistintos, a pele sobre a pele, não sabendo onde um termina e o outro começa.
E abate-se assim a certeza desse último dia, que nos espera, assim como o primeiro já nos aguardou.
É nessa altura que tudo o que se segue se reduz a um segundo, e aflora-te uma lágrima no rosto, entendendo que um dia teremos de dizer adeus. Então, não nos vendo mais infinitos, damos esse abraço, um abraço apocalíptico, como os corpos em Pompeia, suspensos, enfrentando em par a derradeira erupção.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Taxonomia Psico-Linguística dos Snack-Bares e Estabelecimentos Similares Portuguêses


Depois de ter despendido várias horas a investigar a nomenclatura de snack bar no território de Portugal continental tenho a concluir que existem 6 categorias chave e que 98,4% dos nomes recaem numa destas categorias
  • Categoria 1 - Nome de personagens olvidadas de bonecos de animação, programas de televisão anteriores aos anos 80 ou expressões, sempre repetidas. Caem nesta categoria exemplos como Snack bar Tico Tico, Snack bar Zip Zip, Snack bar Trinca trinca ou Snack bar Upa-upa
  • Categoria 2 - Objectos, espaços públicos ou sinais de trânsito habitualmente ignorados pelo trausente comum, mas aqui homenageados, ganhando, finalmente, a sua merecida atenção. Esta categoria engloba a maior percentagem de snack-bares. Caem nesta categoria nomes como Snack bar a Rotunda, Snack bar o Canteiro, Snack bar o Púcaro, Snack bar o Beco, Snack bar o Gaveto, Snack bar o Stop, Snack bar o Charuto
  • Categoria 3 - Não tão vulgar, mas uma das mais impressionantes, engloba expressões imperativas, por vezes fundidas numa só palavra. Aqui temos como exemplo Snack bar Comejá, Snack bar Comicala, Snack bar Comecá
  • Categoria 4 - pode ser subdividida em duas categorias, mas iremos aqui englobar nomes relacionados com grandiosidade, exotismo, diversão e mistério, O peculiar desta categoria é a dualidade entre a expectativa criada pelo nome do snack bar e a indiferença da décor do seu interior. Recaem nesta categoria: Snack bar Galáxia, Snack Bar o enigma, Snack bar Austrália, Snack bar Ipanema, Snack bar Copacabana, Snack bar gente nova e finalmente, Snack bar telheiro do Texas
  • Categoria 5 - Associação directa entre dados do proprietário, do ano ou características de abertura do snack bar. Aqui temos exemplos como Snack bar o Zé, Snack bar o Virgílio, Snack bar 2002, Snack bar o primeiro
  • Categoria 6 - Categoria diminutivos, onde temos exemplos como snack bar o Bifaninhas
Título do artigo por David Oliveira

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O rio



O rio surge quando não se espera, como parágrafos de paz entre ruínas, surge como um fantasma, como uma neblina, como o um murmúrio, um Rio Branco sem corrente, um rio que repousa, um rio que permanece. E enquanto aqui em cima os sapatos bicudos batem nas pedras, os carris desgastados chiam sob o peso dos elétricos e dos passageiros que os sobrelotam, enquanto os desgraçados gritam pelas ruas e os chamamos loucos, enquanto os estrondos sineiros cortam o céu como machados o rio só, visto das janelas e das esquinas das paredes velhas, rasgadas por pombos sujos, os camiões peganhentos, os sacos rasgados e o rio ileso a tudo, evaporando-se, o rio espelho, rosado, o rio eterno. Antes dos homens, depois dos homens. Depois de todas as tempestades e todas as palavras, permanece, debaixo de tudo o que se desmorona, para replicar, desta cidade, somente a ondulação das roupas nos estendais.


Morar aqui



Aqui a vida cobre-me como um manto, um manto de serenidade, a mesma de quem acorda num domingo e decide não tirar o pijama. A cidade mansa amansa-me, desaparece o cansaço, adormecem problemas e inquietudes, e esta Lisboa não é mais para mim do que sossego. Ando pelas ruas e todas as portas estão abertas, todas as casas têm um rosto, e posso o entrar e perguntar quem é e ali morar um pouco. Moro assim na cidade inteira, moro na travessa do Jordão, moro na Calçada de Santana, moro no claustro da faculdade que já foi mosteiro, e que corre o risco de desabar sobre a cisterna. Moro um pouco nas finanças, onde trabalha uma senhora que também se chama Lígia, moro na casa da minha vizinha de baixo cujo pai é pintor e que antes de residir neste t1 de 35 metros quadrados, vivia numa casa de seis assoalhadas em Algés, mas que eu não me preocupe que vou gostar de estar aqui, moro na casa onde nunca entrei da minha vizinha da frente cheia de gatos mas não dona de nenhum, que fala com eles mais que com as pessoas, que vai todos os dias comer a sua sopa, que custa um euro, no café lá em baixo na mouraria, e o melhor dia é o de sopa de peixe, moro nas escadas da travessa, mesmo aqui nesta rua a cheirar a excremento de cão e febras assadas, com fado gasto ou o Júlio Inglesias a sair sempre da mesma janela, moro no anos 60 que é de um galego e diz que já foi um bordel mas agora está à pinha de uma multidão eclética e suada ao sabor do samba, da morna e do tabaco. E é esta a Lisboa que se repete todos os dias a pé, que se respira sem pressa e com a eternidade de já fazer parte da minha carne, do meu sangue, do meu corpo inteiro.

Ao som de: Sopa da pedra - Ó minha amora madura

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

últimos dias. "Último? Não digas último!". Mas como não se todos os dias são últimos, se todos os minutos são últimos?




"Em cada noite morro, em cada, dia renasço."

E chega a hora do fim da data acordada. O tempo das listas do que não se fez, o museu de arte aplicada que foi desenhado por Odon Lechner, o cemitério, os banhos de Margaret, as praias escondidas das margens do Danúbio, o restaurante onde não chegámos a ir, o camping prometido em Kisorosi e uma noite de guitarras e banhos nocturnos em Palatinus, que combinámos com tanta gente, as aulas de guitarra que ficam a meio, as gravações na casa do António, os sabores de gelado caseiro que ainda não provámos, a comida no congelador que é para acabar, os concertos que ficaram por ver, as listas de nomes com quem temos de combinar café. E é assim o fim das coisas, listas e listas de lugares e pessoas maravilhosas a quem queremos agradecer.

E é isto que é viciante em viver fora, este encher e esvaziar malas, estas vidas em parágrafo, estes fins que não são mais que mortes. Viver fora é colocar muitos pontos finais, é morrer várias vezes, morrer com alegria e com saúde, morrer com a alma cheia de sorrisos. O fim: esse sabor fantástico que têm os pôr-do-sol e as últimas colheres de gelado. Viver fora é ser viciado em despedidas, em abraços nos aeroportos, em tirar fotografias. Viver fora é celebrar onde se está, celebrar hoje porque amanhã não dá, e a vida deve ser assim todos os dias, mas é fácil esquecer quando não há estações nem calendários nem bilhetes de partida. 

É assim que se vivem os últimos dias. "Último? Não digas último!". Mas como não se todos os dias são últimos, se todos os minutos são últimos? É isso que me acorda, é isso que me faz
Viver
Fazer
Urgentemente.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Intermitências



A descoberta é saber que gosto das intermitências. A vida cheia de capítulos e pontos e vírgulas.

Ir e voltar, partir e regressar.

Fala-se em emigrar, pois eu falo em viagens, fala-se em decisões pois eu falo em experiências, nada é eterno, é preciso partir e dormir bem longe para saber o tamanho da nossa cama. Foi preciso deixar para construir pontes. Foi o som do alaúde que me mostrou a amarantina, foram os altos pés direitos que me pediram baixas janelas. Nunca entendi como a minha terra era tão rasa, foi preciso ver o sol deixar de brilhar em Bruxelas e a noite eterna dos nórdicos para me lembrar como em lado nenhum o sol brilha como ali, como um manto de luz e brancos muros. Foi preciso provar peixe em muitas praças para descobrir que nada existe como o mercado ao lado da casa dos meus avós. Sou capaz de nomear mais de 15 variedades de bivalves, mais de 30 espécies de peixe, mais de 10 tipos de crustáceos. Pensava que todos sabiam. Foi assim que todas as coisas vulgares se tornaram únicas e preciosas. Foi assim que todas as coisas garantidas se tornaram frágeis. As manhãs a apanhar caranguejos com os meus pais. Os meus avós acenando à janela. O sabor das laranjas colhidas ao sul e dos figos roubados aos cactos.

A descoberta é saber que quero as intermitências. É na ausência que a verdade se revela. Una e singela, uma imagem.

Uma imagem repetida todas as noites:

A minha: uma casa clara, um pinheiro, o cheiro do lodo.

 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A sério


Porto palafítico, Carrasqueira


Poucas horas depois de aterrados já nos tínhamos metido no carro rumo a sul. Foi ao passar pelos arrozais que a minha irmã comentou: "Sabem o que é, aqui é a vida a sério, com os problemas, com as chatices, com o trabalho". E é verdade e dou por mim pensando o que será que me faz levar tão a sério esta aqui, e a tirar-lhe o peso quando vivida em outra língua. Talvez aqui cresçamos com demasiadas referências do que deve ser, dos nossos modelos pai mãe amigos cantigas, e aceitemos-nos só quando não entendemos os cartazes.  É preciso retirar a forma para que o molde nasça, e olhar ao longe para entender a paisagem. Talvez seja essa lição que trago no bolso ao regressar. O olhar leve, aprender a brincar. Que o caminho é sempre melhor que a chegada.
Até este pelos arrozais, mesmo que daqui a breves minutos leve à a areia a que chamo casa.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Um dia antigo em que me zanguei



Os dias acabam-se quando as portas se fecham com o estrondo. Quando a luz do sol não é forte para chegar ao chão. Os dias acabam-se com palavras premeditadas e egoísmos. Os dias acabam-se com as pessoas que deixam de ver.

As pessoas acabam os dias como quem pisa as formigas, sem as notar no passeio. Hoje talvez matei dez formigas, esquecíveis de sua existência.

Hoje o meu dia acabou cedo, quando me zanguei com o mundo. Uma revolta que nasce de entender que é um privilégio ter um sorriso, não um direito, é um privilégio ser ajudada quando mais preciso, e não ser tomada conta.

Sou mendiga de sorrisos mas mais mendigos aqueles por quem passo todos os dias ignorando. E olho para mim agora e penso quem é esse meu direito de me zangar, se eu mesma tantas vezes poderia ter feito o que não fiz. Viver aqui é entender (e ver) sempre alguém que precisa de ajuda. E quem deveria ajudar. Eu vejo os mendigos debaixo das portas e ponho-os em meus ombros para os voltar a pousar. Apenas lhes senti o peso, apenas isso, agora largar e partir. Decepciono-me comigo por nada poder mais como nada faço sequer. E os sorrisos que dou para que chegam? Aqui sinto que devo andar sempre pedindo desculpa. Desculpa por entrar e falar alto. Desculpa por falar ao telefone com amigo. Desculpa por comprar e quando compro desculpa por pagar o dobro do que sei que isso custa. Este é o prego final. É o andar na rua a ver se se dá e nos tirarem o resto, é o dar esmola e nos roubarem a carteira. O dia chega em que a luz não chega cá abaixo. E a minha alma fica mais perto dos que se sentam nas ombreiras. É o desistir de mudar o mundo, é o desistir de espalhar abraços e eu já nem sei se acordei ou se fechei os olhos. Será que vivi dormindo até agora, até hoje ver a realidade crua sem as cores dos meus pincéis.

E chega o momento que a luz se apaga e eu penso se consigo mais um dia. E eu pego em meus trapos e recomeço sem saber se me matam um bocadinho, se estou a encher uma arca de forças para amanhã. De carácter! Dizem eles, ou de realidade! Eu ainda não sei até quando mudarei o mundo. Cada grito mata 20 sorrisos por favor. Pega nos teus olhos e faz coisas bonitas. Eu aqui vejo mãos largas que tanto dão e umas que não se enchem. E as minhas tão cheias que sabem partilhar. Mas hoje vi as mãos mais pequenas de todas, as tiranas, as que entram nos bolsos e que roubam.

E chega o momento em que escolhemos tentar todos os dias todos os dias mudar o mundo com abraços de novo. Eu fico feliz assim que os tenho, eu fico grata sempre que recebo. Eu fico surpreendida sempre que me conquistam. Gostaria do dia em que seria normal não me surpreender. Ser nosso direito. Eu talvez não possa mais que estas palavras. Mas, a quem as leu, dêem sorrisos por favor. Por todos aqueles que se acabaram hoje por aqui.