quinta-feira, 21 de maio de 2015

Fotografias



Um dia acordei e não me chegava
As ruas os arcos as tardes abertas 
Um dia acordei e voltei e precisar 
de sonhar alto
De pensar nos dias que se seguem
A este, quente e moreno.

Esta intermitência de mim que não entendo
Este meu ser em estações 
Pois é quando o sol sai alto que recolho.
E na minha cabeça habitam fotografias
Penduradas em fios de seda
Agitadas pelo vento e vejo
Amarelecidas fotografias
Que ditam o princípio e o fim de tudo
Que puxam pelos sonhos como anzóis em besugos
Fotografias à beira mar de crianças
Madeiras apodrecidas pelo lodo
Casas caiadas e cegonhas

Um dia eu acordei
E não me chegavam as pedras do chão
Precisava de continuar procurando
Por essas fotografias
Em todos os lugares do mundo
Excepto onde foram tiradas.

Um dia acordei e não sei
Se cresci, se me afundei, 
Se procuro, se me perdi.
Eu sou a criança que habita a foto
Que segura as canas que a onda levou
Para com elas desenhar na areia.

Como as canas, transporta-me a corrente 
Por ruas de onde o mar não vi
Mas um dia acordei, e uma voz disse
Procura mais à frente, não estão aqui.


Ao som de: Emilie Lund: Childhood friend

domingo, 3 de maio de 2015

Rovinj



As palavras foram-se embora
Entardeceram, como a plácida poeira.
Adormecendo debaixo de parreiras.
Sob o sol escaldante e a erva seca.

As palavras poisam 
sem a brisa 
E sem as ondas do mar.

Como papagaios em mãos laças
Desistimos de puxar.
E descansamos entre pinheiros.
Damos os dedos, inspiramos.

E da ausência ganhamos o espaço.
E do destino, aceitamos igual
àquele dos dentes de leão.

sábado, 28 de março de 2015

Barcelona


Como gosto de voltar às cidades depois de as ter visitado. Deixo para trás os monumentos e jardins e fica só tempo para as ruas, para as caras, para os sabores. Observo as gentes de Barcelona e procuro padrões. Hoje acordei numa cidade diferente, saio à rua para a reencontrar, como uma amiga.
As pessoas ocupam mais espaço, suas esferas são largas e os espaços intercalam-se, invadem-se. As pessoas entram no meu e eu gosto. Passam-me à frente na fila, convidam-me para um café, elogiam-me a roupa, perguntam o meu nome.
Aqui as ruas são largas e leves e o ar respira-se grande. Surpreendo-me do que tinha saudades e do que não necessito. Aqui o sol entra pelas ruas, bate-me nos olhos. Eu sei que pode ser comum mas lembrem-se, há muitas cidades onde o sol não bate no chão! Fica suspenso alguns andares acima, pelas paredes de betão. Sento-me num degrau para escrever este texto e bebê-lo como quem tem sede. Eu hoje vi uma gaivota. Eu hoje vi uma palmeira. Eu entrei numa mercearia, comprei três tangerinas e ouvi a conversa entre uma senhora chinesa e três indianas, em espanhol - que fazem estudam, as três? E os vossos pais? Eu hoje vi um senhor vestindo trajes do norte de África andando pela rua. Vi uma peixaria cheia de gente. Ando pelas ruas estreitas do bairro do Raval e oiço-lhe os murmúrios, sinto-me perto do chão, perco peso. Há um burburinho de coisas que se transportam, de portas que se abrem, de conversas de esquina, de unhas de cães no asfalto, de rolamentos de skates e trotinetes. Sinto o cheiro de mercearias, de ganza, de padarias, de carne frita. E em cada janela, uma varanda. Em cada varanda, roupa estendida. Como tinha saudades dessa roupa.
É que aqui vive-se para fora. Dá se à rua o que à rua pertence. Partilha-se o indivíduo com o grupo. E janta-se depois da meia noite.
Qual será este espírito que entendo tão bem, que me faz dar por mim a andar pela rua sorrindo, que me faz entender que preciso mais da vida dos outros que pensava. Que preciso tanto de olhar para dentro das casa como de voltar a dormir à minha cama.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Late blues


De volta a casa
De volta a tudo
À paredes brancas e lençóis de algodão
À cama quente ao silêncio de veludo.
À casa que tu és que eu amo.
Eu volto para casa e penso em ti.

Na minha mão um papel um pedaço do que fomos
Num dia em que tudo o que tocava era infinito
E nele continha todas as promessas
Hoje toco e é apenas uma folha de papel
É apenas uma mancha de tinta e cores
Penso no que devo guardar ou deitar fora
Decisões racionais sobre coisas vazias
Que ganham e perdem significado.
E eu, alegre e triste
Em ter pena de ter perdido
Triste dos outros papéis que não acumularei
Com letras e promessas
Tenho pena
Como tenho pena de morrer um dia
E de perder os dias de sol que se seguem
E os risos das pessoas que crescem
Perder a é a nossa constante
Deixar ir é aceitar.

Mas sem isso

Não beberíamos os beijos como se fossem cascatas.
Não saberíamos amar como voam as gaivotas.

Incondicional



Não te esqueças de mim, meu amor,
Não te esqueças. Aqueço-te os pés
E deito-me à lareira meu amor.
Eu deito-me à lareira eu faço a cama
Eu deixo-me à espera à espera que venhas.
Eu deixo-me dormir aos teus pés meu amor
Não te esqueças de me aquecer
Todos os dias meu amor
Eu na cama meu amor
Eu aqui eu fechando
Eu ficando eu amando
Todos os dias, não te esqueças.

terça-feira, 10 de março de 2015

É de manhã




E o dia amanheceu
E abriram-se as janelas
As cortinas, as portas, os portões 
Abriram-se.
Por elas 
Larguei braços cheios de palavras
Larguei amarelo amor
Solestícios de sorrisos
Sim! abriram-se se janelas em quadras
Voaram andorinhas
E foram lençóis chapeando o vento
Foram ondas murmurantes e espuma
E todas as cores do universo
Vindo a minha alma, uma a uma.

O dia amanheceu.
Não como outro dia
Mas sim como o primeiro.
Parindo a alegria.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Chapelaria



Talvez já vos tenha falado desta Budapeste-metamorfose. Como um urso que hiberna no escuro inverno, como um animal pequeno que muda as suas cores com a neve. Talvez até seja tartaruga, que se expande ou recolhe na sua casca.
Eu vou falar de Budapeste-inverno, um lugar povoado de blocos altos de paredes de alvenaria. Abrigos cinzentos e descascados, que no verão vomitam esplanadas e pátios, e no inverno as engolem para as suas catacumbas, ciclicamente. As casas de Budapeste são poderosas, já vos tinha dito. Não são os jardins nem as fontes, nem as largas ruas, nem os passeios largos e inóspitos. São as casas: o centro de tudo. A casa de Peste é um edifício de 4 ou 5 andares, cave de tectos baixos e arcadas, pé direito alto, massivas entradas, grandiosas escadarias e pátios silenciados rodeados de varandas que dão acesso às portas. Portas que se atravessam, que levam a muitos lugares. Podem ser casas somente, ou então, estúdios, pequenas escolas, podem ser bares, lojas, oficinas, bibliotecas ou clubes de jazz, antigos centros de espionagem, prisões, abrigos. Eu sei que todas as cidades têm casas. Mas Budapeste segue uma dinâmica ancestral, labiríntica, secreta. Um emaranhado de segredos que permanecem pelos séculos. Estantes sobre paredes sobre esculturas sobre frescos. Histórias acumuladas em camadas como a tinta e o papel de parede.

Na rua que liga Astoria a Blaha Luzja há vários lugares que me intrigam e inspiram. Naquele dia não foi o maravilhoso cinema Uránia com os seus tectos de ouro, nem foi a associação cultural Múszi no topo de um centro comercial semi-abandonado, ou os quadrados de bronze inscritos no pavimento, indicando os nomes e as mortes que ali aconteceram, na segunda grande guerra. Naquele dia o que nos intrigou foi uma das muitas montras sem loja de Budapeste. É que por vezes se vêm vitrinas nos edifícios com alguns produtos e um papel indicando um andar e campainha. É preciso procurar dentro das casas pelos proprietários destas montras, normalmente pertencendo aos artesãos, alfaiates, sapateiros. Esta pertencia a um chapeleiro, chapéus de inverno em pêlo para finas senhoras.
Tivémos de subir a um primeiro andar por escuras escadas para descobrir, ao final de um corredor, a loja que já existe, imutável, desde os anos quarenta. Uma das muitas cápsulas do tempo da cidade. 
A senhora mostrou-nos, orgulhosa, o espaço. A oficina onde o marido estende as peles e coze os chapéus, mostrou-nos as máquinas e os moldes. E nós tirámos fotos, agradecemos, prometemos contar a história e aqui o faço. História do lugar que o seu pai começou um dia, antes de Budapeste pertencer aos alemães antes de Budapeste pertencer aos soviéticos, antes, quando as finas senhoras que ontem eram meninas de caracóis armados e ganchos aqui vinham comprar estes mesmos acessórios para combinar com o vestido de cetim, o casaco de fazenda e os botins, que ainda hoje aqui podem voltar e repetir os mesmos rituais, e sair para a rua como têm saído em todas as suas décadas. E agora eu sei porque continuam a vestir o mesmo vestido de cetim, o mesmo colar de pérolas, o mesmo chapéu de pêlo de zebelina e pregadeira na lapela. Eu vejo-as no metro de baton e risco nos olhos, nos seus oitentas, prolongando a aristocracia que Budapeste um dia haveria de ter contida em todas as esquinas, e que se foi perdendo com o mesmo vagar com que a fuligem se depositou sobre as paredes. Eu vejo-as e sei agora onde foram comprar o chapéu. Tal como adivinho, por cada vitrine que passo, o existe por trás daquele espacinho. É só vir a curiosidade e tocar a mais uma campainha. É preciso vir para abrir mais uma porta, visitar mais uma divisão desta cidade que se guarda, mas se nos mostra, se lhe pedirmos.