sexta-feira, 5 de junho de 2015

Pazes

Fonte "Cabanas do rio"

"Quando nos zangamos com as pessoas
É preciso fazer as pazes com as paisagens."

Casa fica antes de abrir os olhos de madrugada.
É o sol que a pálpebra fechada deixa trespassar.
É o primeiro instinto que nos diz onde estamos.
Casa é pisar o chão descalço.
É entardecer sem promessas
Porque nada mais faz falta.
A casa chama, quando se está longe
É a lágrima que cai a garganta apertada
Casa é um abraço dado pelo sol
Casa é areia quente e giestas
Casa é voltar sempre voltar
Casa é uma e une sempre
A primeira de todas as casas
A branca casa
A luz da manhã que sabemos de cor
Os sons mudos da paisagem
A que nos fala baixinho ao ouvido
E murmura “está tudo bem”
Um mantra de repetições que oramos em segredo
A casa é a pele que se lembra do toque
Da madeira, dos móveis, da parede.
Debaixo dela, no alvo coração
Dentro das artérias
Chamará para sempre.
Casa
Casa
Casa.

sábado, 23 de maio de 2015

Salento


Dicas para viagens em Puglia:
- Só e somente se fala italiano (é tentar aquela língua inventada misturando todas as línguas latinas)
- Está mais distante do resto do mundo que a geografia indica, ser portuguesa pareceu-me exótico.
- Nas cidades, se o lugar de estacionamento está livre, é porque há um motivo.
- É bom perguntar, toda a gente tem um amigo que faz qualquer coisa que precisas, ou que está disposta a ajudar, ou sabe onde é que se come bem. Os mapas não são tudo.


Salento. Sol, sal, vento, lento. Daqui conhecia-lhe a tarantella, dançada e gritada até à madrugada, numa noite em Celorico da Beira. O resto era imaginação, aquele fascínio de chegar ao fim. O fim de Itália, o fim da terra, os fins do mundo que coleciono. Finisterre envolta em nevoeiro, Sagres e as sua escarpada garganta, cortante como o mar negro. o fim da Albânia, depois das montanhas, que guarda o melhor segredo para os aventureiros. Lugares mágicos onde as últimas rochas enfrentam as primeiras ondas. Nomes místicos e murmurantes, desertos de pó, estradas vazias e horizontes, a essência singular de um lugar que já não nos pertence, que é dos monstros, dos deuses, dos heróis.
E assim seria chegar ao local que imaginei encontrar habitado por grandes homens cantantes de túnica branca e pandeiretas, e nele encontrar uma singela capela coberta de maresia e conchas. Um farol solitário, uma cascata monumentalle, artificial celebração deste ponto, tentativa de conceder ao local o dramatismo inexistente, passando ela a carregar um dramatismo decadente, o de estar fora funcionamento a expor as suas pedras escurecidas, os seus buracos e tubagens.
Mas de Salento, e de Apúlia, afinal, provámos algo diferente do que antes esperei. Do que o tempo e as surpresas permitiram, ficam as ruas murmurantes de Bari com as suas portas-cortina, que separam, ou deixam de separar a vida de dentro da vida de fora. Ficam cartões postal de furgonetas e lambretas conduzidas de mil maneiras por homens de fato nos olivais, ficam os pombos de Torre dell'orso, que um dia se abriu finalmente em azul como o sol, ficam os pombos promovidos a ave marinha, promovidos a gaivota, a viver nos penhascos, a voar sobre o mar, a nidificar nos rochedos, pequenas grutas nos rochedos, como as grandes que vimos antes na magnífica Matera, onde viviam pessoas desta vez, homens vivendo como animais, animais vivendo com os homens, todos promovidos a seres do mar, os voos picados das andorinhas ameaçando embater o asfalto, sempre a brincar com os medos, ficam os vilarejos mais ou menos intactos, os buracos das estradas e dos passeios, as giestas que crescem livres, o cheiro a jasmim, e finalmente, a placidez de segunda-feira de Conversamo com orquestras e velhos debaixo de árvores centenárias.
Mas partimos. 
Sabendo que de Salento só provámos a pequena parte, porque aqui, para conhecer é preciso perguntar às pessoas e mudar os olhos, é preciso o tempo e o vagar dos velhos que se sentam olhando os pomares, e nós chegámos com os dias apressados da cidade.
Mas, se um dia sentir saudades de Salento, do perfil de seus pinheiros mansos, das suas vilas históricas, das suas estradas delgadas entre as oliveiras, dos campos amarelos estalando ao sol, de todas as casas viradas para ao mar, sei que não tardarei a encontrar igual conforto em cada recanto de Portugal.

Ao som de: Officina Zoe Pizzicarealla

Junho



No fundo dos prantos
Debaixo dos mantos
Lisboa chama-me de voz mansinha

Com patas de gato
Do sol e do mato
Lisboa vem, feita andorinha

Eu quero morrer nas tuas sombras, Lisboa
São sombras quentes de pinheiro manso
E acordar ao sol feita sardinheira.

Em pátios onde as cores nascem diferentes
Ando eu pelo mundo e já não sou tua
Mas tu vais chamando, e por cada rua
Crescem em mim as tuas sementes.

E eu já não sei quanto mais consigo
Até voltar a abraçar teu abrigo. 

Por enquanto, trago-te comigo.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Fotografias



Um dia acordei e não me chegava
As ruas os arcos as tardes abertas 
Um dia acordei e voltei e precisar 
de sonhar alto
De pensar nos dias que se seguem
A este, quente e moreno.

Esta intermitência de mim que não entendo
Este meu ser em estações 
Pois é quando o sol sai alto que recolho.
E na minha cabeça habitam fotografias
Penduradas em fios de seda
Agitadas pelo vento e vejo
Amarelecidas fotografias
Que ditam o princípio e o fim de tudo
Que puxam pelos sonhos como anzóis em besugos
Fotografias à beira mar de crianças
Madeiras apodrecidas pelo lodo
Casas caiadas e cegonhas

Um dia eu acordei
E não me chegavam as pedras do chão
Precisava de continuar procurando
Por essas fotografias
Em todos os lugares do mundo
Excepto onde foram tiradas.

Um dia acordei e não sei
Se cresci, se me afundei, 
Se procuro, se me perdi.
Eu sou a criança que habita a foto
Que segura as canas que a onda levou
Para com elas desenhar na areia.

Como as canas, transporta-me a corrente 
Por ruas de onde o mar não vi
Mas um dia acordei, e uma voz disse
Procura mais à frente, não estão aqui.


Ao som de: Emilie Lund: Childhood friend

domingo, 3 de maio de 2015

Rovinj



As palavras foram-se embora
Entardeceram, como a plácida poeira.
Adormecendo debaixo de parreiras.
Sob o sol escaldante e a erva seca.

As palavras poisam 
sem a brisa 
E sem as ondas do mar.

Como papagaios em mãos laças
Desistimos de puxar.
E descansamos entre pinheiros.
Damos os dedos, inspiramos.

E da ausência ganhamos o espaço.
E do destino, aceitamos igual
àquele dos dentes de leão.

sábado, 28 de março de 2015

Barcelona


Como gosto de voltar às cidades depois de as ter visitado. Deixo para trás os monumentos e jardins e fica só tempo para as ruas, para as caras, para os sabores. Observo as gentes de Barcelona e procuro padrões. Hoje acordei numa cidade diferente, saio à rua para a reencontrar, como uma amiga.
As pessoas ocupam mais espaço, suas esferas são largas e os espaços intercalam-se, invadem-se. As pessoas entram no meu e eu gosto. Passam-me à frente na fila, convidam-me para um café, elogiam-me a roupa, perguntam o meu nome.
Aqui as ruas são largas e leves e o ar respira-se grande. Surpreendo-me do que tinha saudades e do que não necessito. Aqui o sol entra pelas ruas, bate-me nos olhos. Eu sei que pode ser comum mas lembrem-se, há muitas cidades onde o sol não bate no chão! Fica suspenso alguns andares acima, pelas paredes de betão. Sento-me num degrau para escrever este texto e bebê-lo como quem tem sede. Eu hoje vi uma gaivota. Eu hoje vi uma palmeira. Eu entrei numa mercearia, comprei três tangerinas e ouvi a conversa entre uma senhora chinesa e três indianas, em espanhol - que fazem estudam, as três? E os vossos pais? Eu hoje vi um senhor vestindo trajes do norte de África andando pela rua. Vi uma peixaria cheia de gente. Ando pelas ruas estreitas do bairro do Raval e oiço-lhe os murmúrios, sinto-me perto do chão, perco peso. Há um burburinho de coisas que se transportam, de portas que se abrem, de conversas de esquina, de unhas de cães no asfalto, de rolamentos de skates e trotinetes. Sinto o cheiro de mercearias, de ganza, de padarias, de carne frita. E em cada janela, uma varanda. Em cada varanda, roupa estendida. Como tinha saudades dessa roupa.
É que aqui vive-se para fora. Dá se à rua o que à rua pertence. Partilha-se o indivíduo com o grupo. E janta-se depois da meia noite.
Qual será este espírito que entendo tão bem, que me faz dar por mim a andar pela rua sorrindo, que me faz entender que preciso mais da vida dos outros que pensava. Que preciso tanto de olhar para dentro das casa como de voltar a dormir à minha cama.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Late blues


De volta a casa
De volta a tudo
À paredes brancas e lençóis de algodão
À cama quente ao silêncio de veludo.
À casa que tu és que eu amo.
Eu volto para casa e penso em ti.

Na minha mão um papel um pedaço do que fomos
Num dia em que tudo o que tocava era infinito
E nele continha todas as promessas
Hoje toco e é apenas uma folha de papel
É apenas uma mancha de tinta e cores
Penso no que devo guardar ou deitar fora
Decisões racionais sobre coisas vazias
Que ganham e perdem significado.
E eu, alegre e triste
Em ter pena de ter perdido
Triste dos outros papéis que não acumularei
Com letras e promessas
Tenho pena
Como tenho pena de morrer um dia
E de perder os dias de sol que se seguem
E os risos das pessoas que crescem
Perder a é a nossa constante
Deixar ir é aceitar.

Mas sem isso

Não beberíamos os beijos como se fossem cascatas.
Não saberíamos amar como voam as gaivotas.